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sábado, 5 de setembro de 2009

O idioma do silêncio

O idioma do silêncio
Por uma determinação do Ministério Público, autoescolas de Santa Catarina devem oferecer um intérprete para alunos surdos
Quando Mário Augusto Henning, 27 anos, completou 18, em 2001, quis dirigir. Ele nasceu surdo e para frequentar a autoescola, em São José, na Grande Florianópolis, precisou do acompanhamento da mãe, que traduzia o conteúdo das aulas para a Língua Brasileira de Sinais (Libras). Se fosse hoje, a autoescola é que deveria oferecer um intérprete.
Uma recomendação feita pelo Ministério Público de Santa Catarina determina que os centros de formação de condutores do Estado ofereçam aos alunos surdos suporte para assistirem às aulas.Coube ao Departamento Estadual de Trânsito (Detran) de Santa Catarina repassar a recomendação às autoescolas, que devem oferecer condições para que alunos surdos frequentem as aulas.
O Detran também deverá dar suporte para que eles realizem as provas.A decisão foi comemorada pela família Henning. Os pais de Mário aprenderam com o filho a Libras há cerca de 12 anos. Desde então atuam como intérpretes. A mãe acompanhou o filho e uma amiga dele, também surda, em todas as aulas teóricas da autoescola.
Nas práticas, ela lembra que não foi preciso:– O que fiz foi apenas ensinar alguns sinais ao instrutor.Sueli lamenta que, ao fazer o teste psicotécnico no Detran, ela, o filho e a amiga dele tiveram de enfrentar risadas de outras pessoas, quando ela fazia o sinal de parar para os dois.Mário conta que não encontrou dificuldade nas aulas práticas.
Nas teóricas, observou que, para os surdos, seria melhor se houvesse menos texto e mais figuras. Apesar de ter que compreender um alfabeto que não é o seu, superou as dificuldades e obteve a habilitação no primeiro teste.O assessor jurídico do Detran, Ricardo Grillo, disse que, apesar de a recomendação ter sido repassada aos cerca de 350 centros de formação de condutores credenciados no Estado de Santa Catarina, não foi estipulado nenhum prazo para que eles se adaptem à novidade.
Caso haja descumprimento, o Detran repassará o caso ao Ministério Público, que poderá entrar com alguma ação contra os centros (punição não está definida).Ricardo Grillo disse que o Detran está com dificuldade para encontrar intérpretes que traduzam as provas aos candidatos surdos.
A solução provisória encontrada pelo departamento, por meio de uma portaria, foi permitir que toda pessoa surda leve um intérprete para resolver as questões.O presidente do Sindicato dos Centros de Formação de Condutores do Estado, Murilo dos Santos, afirmou que as autoescolas estão cientes da recomendação.
Além de precisarem oferecer intérpretes, elas não poderão se negar a receber um aluno surdo. De acordo com ele, foi justamente um caso de matrícula negado que deu origem à recomendação.Para Mário, dirigir não é um problema.

Ele garante que é um excelente motorista. Explica que dirige sempre atento aos espelhos retrovisores, e que nunca enfrentou problemas por não ouvir as buzinas, por exemplo. Ele gostaria que a surdez estivesse destacada na carteira de motorista. JÚLIA ANTUNES LORENÇO
Ao volante, sem audição
Os números
> Há 5 milhões de pessoas surdas ou com alguma deficiência auditiva no Brasil. Em Santa Catarina, os surdos formam um contingente de cerca de 170 mil pessoas. O Detran não sabe informar quantos motoristas surdos existem no Estado, porque a informação “condutor surdo” não aparece na habilitação.
A recomendação ao Detran
> Orientar os centros de formação de condutores do Estado para dispensarem aos alunos com deficiência auditiva tratamento diferenciado, por meio do uso e da difusão de Libras e da tradução e interpretação de Libras
> Fiscalizar o cumprimento, por parte dos centros de formação de condutores, do direito assegurado às pessoas com deficiência auditiva
> Após a orientação, comunicar à 30ª Promotoria de Justiça da Capital os casos de descumprimento do direito assegurado às pessoas com deficiência auditiva.

Fonte: Diário Catarinense, 04/09/09

5 comentários:

Antonio Paulo disse...

Esta na hora das autoridades darem mais atenção ao deficientes em todos os seguimentos da sociedade.Quanto a libras essa linguagem começa a ser mais difundida.

Ricardo Conceição disse...

As autoridade não pensam nos deficientes...

Fernanda Guerra disse...

Oportunidade a todos e direitos iguais...

Maria José disse...

Alessandra. Como sempre, os seus textos são muito informativos. Hoje passei aqui para lhe dizer que deixei um selinho de presente lá no meu blog. Beijos.

ONG ALERTA disse...

Oportunidade só isso...