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quarta-feira, 21 de julho de 2010

Cissa

Cissa
Escrevo sob forte emoção. Acabei de saber da morte do filho da Cissa Guimarães, que foi atropelado essa manhã (de ontem) no Rio de Janeiro. Tinha 18 anos, o Rafael. Eu o conheci no apartamento da Cissa, em 2009, quando fizemos uma primeira reunião para discutir sobre a peça Doidas e Santas, baseada em livro meu, que ela estava encenando atualmente no Teatro Leblon.
Semana passada, ela ainda me telefonou para dizer que a temporada havia sido prorrogada por mais três meses e brincou: “Sou ou não sou a Cissa Torpedão?”. Com aquela gargalhada gostosa que todos conhecem, ela arrematou: “Estou na melhor fase da minha vida, guria”. Estamos sempre na melhor fase da nossa vida.
Este ano, Cissa esteve duas vezes aqui em casa, onde pudemos conversar com mais tranquilidade – ainda que ela seja tudo, menos tranquila – e confirmei o que já percebia pela tevê: é uma mulher que esbanja vitalidade. Para ela não há tempo ruim: diante de um problema, transforma a dor em energia e toca adiante. Não sei como vai ser agora.
Conheço muitas pessoas que já sentiram essa dor virulenta. Há mais de 10 anos, publiquei uma crônica sobre perda de filhos (“Imitação de vida”) e muitas mães entraram em contato, certas de que eu já havia passado pela experiência e dizendo-se confortadas pelo que eu havia escrito. Nunca passei por essa tragédia, e lembro de ter ficado constrangida por ter me atrevido a um assunto tão delicado.
Se aquelas mães desfalcadas de seus filhos haviam se sentido confortadas por palavras de quem nunca havia vivenciado o mesmo drama, talvez se sentissem ainda mais confortadas por quem realmente passou, e então tive a ideia de escrever um livro reunindo depoimentos de várias mulheres e suas mutilações particulares, para que servisse de amparo para quem viveu essa fatalidade (não estou desmerecendo de forma alguma a dor de um pai – é que eu tinha mais intimidade com as mulheres que pensei em entrevistar).
Só que não consegui levar a ideia adiante. Por mais bem-intencionada que estivesse, daria a impressão de estar explorando a dor alheia, sem falar que ficaria demolida ao ouvir os relatos. Desisti por covardia.
Havia preparado uma outra crônica para hoje, mas o tema anterior se tornou irrelevante. Tudo se torna irrelevante diante da perda de um filho, ainda mais quando é o filho de alguém que valoriza a família acima de tudo – como nós, aliás.
Eu, que vinha passando por uns dias ruins, agora me pergunto: do que mesmo eu estava reclamando? Cada um sabe o que lhe dói, e todas as dores são respeitáveis, mas às vezes é importante a gente lembrar que a única coisa de que precisamos é ter ao nosso lado as pessoas que amamos, o resto é negociável, e isso vale para artistas, balconistas, diaristas e todos que vivem em alta velocidade, sem perceber que, no balanço das horas, tudo pode mudar.
Fonte: zero hora, MARTHA MEDEIROS, 21/07/2010

25 comentários:

ONG ALERTA disse...

O que uma mãe pode dizer a outra mãe em uma hora desta, que é hprrível, que isso nunca passará e que precisamos continuar vivendo???
Paz para o coração desta família e principalmente esta mãe, um abraço apenas mais uma mãe...que conhece esta dor...

♫ ♪ Wilson ♫ ♪ disse...

OLá,Amiga!

Passando para te desejar uma boa noite.

Tudo de bom!
Desejo muita luz, paz, conforto para o coração dessa familia.
Abraço carinhoso.

Pepi e Xixo disse...

Olá
"Estamos" passando para retribuir a visitinha
A dor da perda de um filho, deve ser a pior de todas...
Que Deus conforte essa mãe
Um abraço fraterno
Verena

Luciana disse...

Oi Amiga

A dor deve ser terrivel quando se perde um filho seja de qual forma
Bjs e boa quarta

"Hamilton H. Kubo - Profundo Pensar" disse...

Disse tudo Lisette, acima de tudo é uma Mãe que sofre.
Nossas energias para tentar ao menos amenizar tamanha dor...

Beijos

Hod disse...

O apoio, a solidariedade em momento tão doloroso e o silêncio do vácuo criado inesperadamente, só a mãe, a que gerou sente a dor maior. Sim um filho é insubstituível, e não substituirá a dor.
Porca é essa estupidez, e essa impunidade absurda e irracional.
Que a paz chegue ao coração dessa mãe no ritmo e no tempo que for preciso.

Forte abraço Lisette.

Marcio Nicolau disse...

No balanço das horas, tudo pode mudar,sim, é inquestionável. Surpreende no entanto a irresponsabilidade e o descaso diante da vida (própria e alheia). As mortes no trânsito, as balas perdidas, os terríveis atos neo-nazistas homofóbicos, a violência contra a mulher... colecionamos episódios dolorosos que, no balanço das horas, interrompem vidas. Até quando?

Marilu disse...

Querida amiga, nessas horas não há o que dizer, faltam palavras e sobra tristeza...Postei no meu blog sobre mães orfãs...Beijocas

Machado de Carlos disse...

Bela crônica! Nem sei o que dizer dos fatos. Devemos entender que apesar das perdas; a Vida deve continuar!
Um grande Abraço!

ஐ¸.*Lady *.¸ஐ disse...

Eu vi a notícia.
Muito triste, eu chorei, pois tenho um filho de 12 anos, único, meu presente divino e imaginei a dor da Cissa.
Como mãe, posso imaginar o que ela está sentindo.
Pois filho é um pedaço de nós.
Que Deus conforte seu coração e de todas as mães que passam por isso.
Deus, até quando?
Paz e luz no coração Lisette.
Com carinho, Lady.
Bj

Suziley disse...

Muito triste. Mesmo assim, o nosso desejo de paz para essa mãe (Cissa) também!! Boa noite, beijos no seu coração Lisette ;)

Serginho Tavares disse...

só uma mãe pra saber a dor de outra mãe

Nilce disse...

Falou tudo, Lisette

Não há como falar, numa tentativa de consolo, sobre essa dor e triste experiência que vc carrega no peito.
Deus esteja sempre conosco, mães que esperam pela vida toda a volta de nossos filhos.

Bjs no coração!

Nilce

Victor Zanata (Exilados do Paraíso) disse...

É uma saudade grande para quem fica. Paz

heli disse...

Lisette.
Muito bem colocada a crônica da Martha.
Não há palavras que possam minimizar a dor da perda de um filho.
Só nos resta orarmos para que Deus conforte essa família pela grande tragédia ocorrida.
Abraços,
heli

"Cantinho Poético" disse...

"Não permita
que a vida passe sem que as pessoas
saibam o significado
que elas tem para você."


(Pe.Fábio de Melo)

Feliz Noite e carinhos meus! M@ria

Beatriz Prestes disse...

Minha alma se cala amiga querida!
Oro com imenso amor por mais esta mãe dilacerada!
Com carinho
Bea

ANTOLOGIA POÉTICA disse...

Enganam-se os que julgam-me pelo sorriso
Farto; larga calçada de poesia embriagada
Pois em mim nada há do que dizer preciso
A não ser a ânsia louca pela vida; mais nada

(Lena Ferreira)

AMor & Poesia.....Beijos M@ria

Marliborges disse...

Que Deus, em sua infinita misericórdia, acalme e conforte o coração dessa mãe, desse pai e dos irmãos que ficaram. Essa dor é incurável. O tempo não apaga, apenas alivia. Sei bem o que é isso. Beijo grande amiga

soninha disse...

Mais uma bela crônica,pena que de mais um fato tão triste que é a perda de um filho.Desejo muita luz para a família e paz em seus corações.

Everson Russo disse...

Mais uma perda sem razão,,,é complicado a gente ver isso a cada dia...beijos de bom dia.

Mulher na Polícia disse...

Não deve haver dor maior para um ser humano experimentar que essa, de perder um filho.

Que Deus nos proteja e console.

ValériaC disse...

Lisette querida...por mais que alguém tente imaginar,a dor deve ser imensa, só quem passou por ela sabe.
E o que podemos fazer é pedir a Deus que seja refrigério em cada um que tenha que passar por esta tão dolorosa situação...
Beijos...
Valéria

Mimirabolante disse...

Desejo Paz!!!Muita Paz !Gosto muito do trabalho dela,pela TV,ela passa uma imagem de uma pessoa alegre.....sabe,nem sei como escrever....ninguém quer esta dor !!!Precisamos repensar urgentemente a nossa maneira de viver,de se divertir e tentar amar ao próximo !!!!!Paz para todos !!!!

Ana (Ballet de Palavras) disse...

Lisete,
A morte de um (a) filho (a) é uma morte prematura, dolorosamente anunciada e, semelhantemente desejada por quem subsiste e, sofre com o dano irrecuperável.

Sempre que se faz anunciada é catastrófica. Sem apelo, pesarosamente se faz notada e, as sequelas são irreversíveis.

Semelhantemente, a dor que personifica, o pesadelo que acresce na vida de quem que fica é intolerável, insuportável.

Desejo e, rezo para que o tempo … O tempo que vive de braço dado com a nossa vida, aconchegue o peito, agasalhe, amenize a dor, a saudade, a tristeza sentida e, vivida pela Cissa e, por todas as “Cissas” que sofrem de uma forma atroz e, desumana pela ausência na suas vidas das pessoas amadas.

Um beijinho de mim para si.

Ana

P.S. - Sinto-me diminuta ...